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Produção de vinho com quebras entre 20 e 25 por cento


Público, Segunda-feira 27 Ago.07



Colheita deve situar-se entre os 5,65 e os 6 milhões de hectolitros. Os preços devem subir, apesar de não se esperar um ano de grande qualidade.

Portugal vai começar a ressumar a mosto, cumprindo o seu desígnio de país vinhateiro. Já há alguns produtores a colher uvas, mas as vindimas só deverão arrancar a sério na segunda semana de Setembro. A maturação dos frutos está atrasada em quase 15 dias e ninguém sabe o que ainda está para vir.

As elevadas precipitações durante a Primavera e início do Verão prejudicaram a floração e provocaram surtos de míldio e oídio nas vinhas, o que vai levar a uma quebra na produção. A redução deverá ser mesmo superior aos 10 por cento estimados pelo Instituto Nacional de Estatística. As últimas previsões do Instituto da Vinha do Vinho (IVV) apontam para uma quebra de 20 a 25% relativamente à campanha de 2006-2007. Assim, a produção deste ano deverá situar-se entre cerca de 5,65 e 6 milhões de hectolitros. Em relação à média das últimas três campanhas, a quebra deverá ser um pouco inferior (ver gráfico na página seguinte).

A maior quebra deverá ocorrer nas Beiras, em particular na Beira Interior, onde se espera uma diminuição da ordem dos 50 por cento. Nas regiões vitivinícolas do Minho e de Trás-os-Montes também se esperam reduções acentuadas, da ordem dos 26 a 32 por cento. Este valor, explica o IVV, pode ser influenciado pelo que vier a acontecer no Douro, onde é esperada uma diminuição na colheita de 18 por cento. Em contrapartida, a produção autorizada de vinho do Porto é de 125 mil pipas de vinho do Porto, mais 1500 pipas de 550 litros do que na vindima de 2006.

No Sul, a situação é menos má, em particular no Algarve e no Ribatejo, onde as quebras serão mínimas. Na Estremadura e no Alentejo, a produção deverá baixar entre 18 a 25 por cento. As ilhas deverão ser pouco afectadas, com reduções estimadas de 5 a 7,5 por cento.

 

O exemplo de Paul
O drama dos preços na óptica de um produtor.

O grupo Symington, o maior produtor e exportador de vinho do Porto, trabalha com cerca de mil viticultores. Um deles é o próprio presidente do grupo, Paul Symington. Como todos os membros de família Symington. também Paul comprou uma quinta no Douro. As uvas e o direito de produzir vinho do Porto, o chamado benefício, vendeu-os ao grupo a que preside, que os pagou ao mesmo preço que paga aos produtores com quem trabalha. Quando foi fazer as contas, Paul constatou que o que recebeu do seu próprio grupo não chegou para pagar o granjeio das suas vinhas. Foi o próprio Paul Symington que contou a sua experiência de produtor ao crítico de vinhos João Paulo Martins. Claro que o Paul Symington presidente do grupo não quereria explorar o Paul Symington produtor. Mas o caso espelha bem as dificuldades que os produtores durienses atravessam actualmente.

Dúvidas sobre qualidade
As expectivas em relação à qualidade também não são as melhores, embora as opiniões divirjam. O produtor e enólogo Dirk Niepoort, por exemplo, acredita que, apesar das doenças que afectaram as vinhas, "o ano promete". "O míldio e o oídio não afectam a qualidade total das vinhas. Por outro lado, os solos têm mais água e as temperaturas têm estado amenas, o que permitirá fazer vinhos mais equilibrados em termos de acidez e de álcool", diz.
O crítico de vinhos João Paulo Martins não é tão optimista. Acha que a vindima deste ano ainda "é uma incógnita", mas está convencido de que a qualidade dos vinhos, em geral, "será fraca". "O ano não correu bem e são de esperar mostos muitos desequilibrados. No caso dos brancos, as temperaturas amenas permitiram uma maturação prolongada e suave e é possível que haja bons vinhos, sobretudo no Alentejo. Já nos tintos é mais difícil. Os tintos precisavam de mais calor", realça.
Acresce que, devido à instabilidade climatérica, este ano exigia um grande investimento na protecção das vinhas, sobretudo contra os ataques do míldio e do oídio. Só que, face aos preços a que têm sido pagas as uvas nos últimos anos, muitos lavradores não estavam em condições financeiras de fazer esse esforço. É por isso que João Paulo Martins prevê um "ano dramático para as cooperativas". "Vai entrar muita coisa estragada", antevê.

Preços podem subir
Na conjuntura actual, o que preocupa mesmo é uma eventual má qualidade geral dos mostos, já que o decréscimo de produção até pode ser uma bênção para o sector. Porque permite reduzir os stocks existentes em muitas empresas e cooperativas, aumentar o preço das uvas juntos dos produtores e suster "o escândalo dos preços baixíssimos a que se estão a vender os vinhos", sobretudo os das gamas inferiores, como sublinha Dirk Niepoort.

Um cenário de crise que afecta os empresários do sector e, acima de tudo, os lavradores, muitos dos quais têm vendido as uvas a preços que não chegam sequer para pagar os custos da vindima. Muitas adegas cooperativas, sobretudo grande parte das do Douro, passaram de protectoras a pesadelo dos próprios sócios, pagando mal e a más horas. Mas as grandes empresas e os intermediários que no início desta década começaram a atrair os produtores com melhores preços também têm vindo a pagar cada vez pior as uvas, aprofundando a crise. Na última vindima, grupos como o espanhol Sogevinus, que controla firmas exportadoras de vinho do Porto como a Calém, a Barros e a Kopke, chegaram a pagar os 750 quilos de uvas, correspondentes a uma pipa de vinho, a menos de 100 euros. E mesmo a Sogrape, que costumava ser mais generosa, pouco mais pagou a muitos lavradores.

A situação estende-se um pouco a todo o país. No Alentejo, por exemplo, já lá vai o tempo em que se pagava um euro e meio pelo quilo de uvas. As grandes empresas têm vindo a aumentar as suas áreas de vinhas, tornando-se menos dependentes da lavoura. Por outro lado, para manterem os preços baixos, jogam com a insegurança dos produtores, não se comprometendo com preços nem com datas de pagamento.

A poucos dias da vindima, só poucos produtores sabem quanto vão receber pelas uvas. As grandes empresas adiam até ao limite as suas decisões para evitarem uma escalada nos preços. Com o passar dos anos, o mais certo é que todos venham a perder com esta forma de negociar. Porque não é possível esperar que um produtor trate devidamente a sua vinha se sabe que, no final do ano, vai ter prejuízo. Como, de resto, aconteceu neste ano difícil. E sem uvas não se fazem bons vinhos.
A subida dos preços agrada a Dirk Niepoort, que considera os valores actuais das gamas baixas "um escândalo"

A produção nas regiões tradicionais

Instabilidade do clima provoca quebras generalizadas nas principais demarcações.

Douro
Na região do Douro, devido às chuvas tardias de Maio e Junho, em conjunto com o oídio e o míldio, verificou-se a destruição de algumas vinhas e um atraso no processo de maturação da uva. A produção média anual é de 277 mil pipas, mas este ano prevê-se uma diminuição para as 236 mil pipas, uma quebra na ordem dos dez por cento. No entanto, a produção do vinho do Porto não será afectada. No que concerne à qualidade, Jorge Monteiro, presidente do Instituto de Vinhos do Douro de Portugal, garante que "dificilmente será um grande ano, mas não se poderão fazer previsões seguras antes do início das vindimas". Os preços não deverão sofrer alterações devido à diminuição da produção.

Alentejo
No Alentejo, a quebra da produção rondará os 22 por cento em relação ao ano anterior, porque no início as uvas não se desenvolveram como previsto e, posteriormente, o míldio afectou as vinhas. Segundo Joaquim Madeira, presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo, "a qualidade estará dentro dos parâmentros normais, que são considerados excelentes e, como ainda há stocks de vinho nas adegas e nos produtores, o preço não será afectado".

Verdes
Os vinhos brancos registarão, em princípio, uma quebra na ordem dos 30 por cento em relação ao ano passado devido às chuvas na altura da floração e ao ataque do míldio. Se a produção cair abaixo dos 30 por cento pode ter efeitos preocupantes ao nível dos stocks. Em relação à qualidade, se o tempo continuar seco será um bom ano, mas não se poderá dizer que a qualidade é excepcional.
Já há cinco anos consecutivos que se verifica um aumento das vendas e isso faz com que não haja muito vinho branco em stock, diz Manuel Pinheiro, presidente da Comisssão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes.

Bairrada
A região da Bairrada apresentará uma diminuição da produção de cerca de 20 a 30 por cento. Nos últimos anos a média tem sido de 38 mil hectolitros mas este ano o valor vai ser inferior. José Pedro Corte-Real, secretário-geral da Comissão Vitivinícola Regional da Bairrada, relembrou que "se as temperaturas se mantiverem como nos últimos dias espera-se uma boa maturação e uma colheita de bastante qualidade, que poderá ser melhor que a do ano passado".
Devido à produção excedentária de vinhos em Portugal não se prevê, com esta quebra, um aumento dos preços. No entanto, se a qualidade da colheita for realmente boa, os preços poderão sofrer alterações.

Dão
Os vinhos do Dão esperam uma quebra de 40 por cento na produção. As chuvas de Maio e Junho, assim como o míldio e o oídio, prejudicaram muito a saúde das vinhas. Em média, produziam-se cerca de cinco milhões de litros e segundo Calisto Mouta, vogal da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, "este ano o valor será bastante inferior". Se o tempo se mantiver ameno nos próximos dias o vinho será de qualidade.

Ribatejo
Nesta região, a diminuição da produção estará entre os cinco e os dez por cento, devido ao intenso calor na primeira semana de Agosto e ao ataque do míldio. João Silvestre, secretário-geral da Comissão Vitivinícola Regional do Ribatejo, assegurou que "a qualidade será igual ou superior à do ano passado porque as últimas temperaturas registadas, na ordem dos 25/30ºC, têm ajudado a maturação da uva". Se as condições climatéricas se mantiveram a qualidade será excelente. As vindimas do vinho branco tiveram início no passado dia 20, enquanto as do tinto começarão dia 3 de Setembro. A quebra na produção não é significativa para provocar alteração nos preços.