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PRESS
A riqueza de campos ardidos
Jack Soifers



Jornal de negócios - 29 de Agosto 2006




Na UE somos um dos países com mais rápido crescimento de massa florestal. Mas há meio-século somos o que mais a perde por incêndios. Por quê não aproveitar seu potencial?
A cinza de campo ardido faz bom solo e, se irrigado, pode transformar-se em óptimo celeiro para sementes especiais, plantas ornamentais e hortifrutículas orgânicas, com grande valor no mercado mundial.

Quando fui consultor nos EUA aprendi que 'se o mercado te dá um limão, faz limonada'. Podemos transformar um desastre em vantagem. Para isto o Ministro da Agricultura deve criar um grupo para ensinar e ajudar a implantar empresas agro-tech.

José Ferraz Alves, do BPI, perguntou há semanas à Basílio Horta, se mais importante em vez de atrair capital não era atrair empreendedores tecnológicos para aqui viverem com suas famílias e daqui exportar. É uma grande sabedoria. A Suécia assim o fez no século XVIII, quando tinha minério de ferro mas não pessoal competente para o transformar e importou Belgas que formaram pequenas empresas. Após cem anos ela exportava aço e pouco depois era líder mundial em ligas especiais.

O enorme crescimento empresarial nos EUA deveu-se a imigração de competentes norte-europeus que ali encontraram condições de iniciar pequenas empresas, hoje globais: real livre concorrência, sem burocracia nem boys. Há 30 anos Israel era essencialmente agrícola, mas para lá foram milhares de empreendedores experientes. Exportaram citrinos, sumos e tomates. Hoje de lá se exporta alta tecnologia em energia solar, electrónica, electro-medicina, irrigação, genética vegetal.

Dinamarqueses e Holandeses adoram a gente e o clima de Portugal. Lá há centenas de empresários rurais especializados em sementes e mudas de árvores e plantas, cada uma voltada para diferentes tipos de solo e clima. Eles dizem que Portugal tem tudo para esta actividade: curto Inverno, longa Primavera, Verão seco, vento seco. Visitei seus campos e vi como é fácil atender aos mercados crescentes. Se lhes fossem oferecidas parcerias com os donos de campos ardidos, cinco técnicos e financiamento para irrigação, eles transformariam as cinzas em milhões de euros. Não é mágica, é tecnologia, esforço e experiência no nicho. Não mais aquelas matas nem as vizinhas arderiam, mesmo com a inveja de muitos e a ganância de alguns. 

Devemos motivar proprietários e concelhos a mudar o foco de grande projecto, que exige complexas autorizações, onde intransparência e até corrupção pode ocorrer, para pequeno investidor com tecnologia e mercado lá fora. Este gera trabalho e compra materiais locais.

Antes é necessário mudar o actual sistema de licenciamento. Autarcas querem licenciar o máximo de densidade na orla para ganhar mais-valias, IMI, etc. As consequências dentro de 10-20 anos ficam com outros. Para valorizar a agricultura e recursos naturais no interior é preciso que as mais-valias sejam pagas à Administração Central. Até que haja eficiente controlo não se poderia acabar com o 'direito adquirido' quando obtido por presumido dolo, contra a orientação das CCDR? O 'caso-a-caso', ferrenhamente defendido por muitos autarcas, espanta o investidor sério, que não pode ser envolvido com presumida corrupção. Em seu país hoje não é como há 20 anos, quando ela era punida só se lá ocorrida.

Chega de grandes piratas e patos-bravos! Há muitos descobridores, empreendedores tecnológicos que nos ajudariam a exportar, trariam emprego e fariam de fogos um arco-íris de mudas e sementes high-tech e das cinzas euros azuis e laranjas. Façamos limonadas!